O Centro Universitário Teresa D’ Ávila – UNIFATEA, enraizado em uma história rica e conectado com as suas tradições das Filhas de Maria Auxiliadora, está dedicado e comprometido com o futuro da educação de Lorena e região. Desde sua fundação em 1954 como Instituto Santa Teresa tem sido um farol de excelência acadêmica e valores cristãos, adaptando-se continuamente às demandas do presente sem perder de vista suas raízes históricas.
Neste contexto de constante evolução, o UNIFATEA se destaca como uma instituição que não apenas preserva suas tradições, mas também abraça a inovação, por isso, cada vez mais os acadêmicos são incentivados a desenvolver o senso crítico para possibilitar novos projetos.
Publicamos abaixo a resenha, intitulada “Frankenstein do Século XXl”, que mergulha na obra de Mary Shelley, extraindo lições atemporais sobre a natureza da criação, da solidão e do desespero humano. O texto é da aluna Larissa dos Reis Pereira, do 1º período de letras, que supervisionada pelo professor dr. João Francisco, constrói uma análise revelando os dilemas enfrentados por Frankenstein e sua criatura. Dilemas esses que mostram questões do mundo contemporâneo, como ansiedade, depressão e busca por identidade.
André Brazil / Estagiário – CECOM
Leia na Íntegra:
FRANKENSTEIN DO SÉCULO XXI
Uma interpretação do mal do século a partir da obra de Mary Shelley
Larissa dos Reis Pereira
Frankenstein, ou O Prometeu Moderno, romance da escritora britânica Mary
Shelley (1797-1851), retrata a vida, no início feliz e repleta de sonhos, do jovem
cientista Victor Frankenstein, o qual possui uma família amável e bem estruturada.
Com o passar do tempo, observa-se que Victor começa a possuir ideias mais sombrias
e vaidosas, baseadas em seus estudos e curiosidades. Tais ideias resultam na criação
de um monstro, o qual nunca fora nomeado, que o aterroriza a partir de seus primeiros
instantes de vida, pois a partir de então, o criador compreende o grande erro que
cometera.
O monstro sente-se genuína e profundamente ligado ao seu criador, buscando
o com esperanças de obter respostas e, principalmente, amor. Os anos foram
passando e Frankenstein luta para conseguir se desvencilhar de sua criação, visto que
nunca conseguira o aceitar. Contudo, sentindo-se abandonado e humilhado, a criatura
fez inúmeras vítimas, incluindo a família de seu criador, visando atrair a atenção do
mesmo para puni-lo pelo desprezo que sente por sua própria criação, a qual, pelo seu
ponto de vista, deveria ser assistida e amada.
A obra analisada retrata uma leitura complexa, visceral e, por vezes, repleta de
desencontros amorosos e espirituais. A mente sagaz de Mary Shelley, muito à frente
de seu tempo, reflete seu trabalho grandioso, tocante e, mesmo que por uma
perspectiva mais ousada, real. Compreender Frankenstein sob um distinto ponto de
vista é uma oportunidade de perpetuar a criação da autora, fazendo com que haja uma
nova perspectiva do monstro a cada novo e curioso olhar.
E você, curioso leitor, já parou para pensar que, ao longo dos anos já vividos,
também pôde dar vida a diversos monstros? Quando não consegue adormecer, ou ao
menos ficar em paz, pois só consegue pensar em obrigações ainda pendentes ou em
momentos que, por mais longínquos que sejam, são deveras aguardados… ou quando
goza de um dia incrível, ao lado de pessoas que ama, e, ao retornar para casa, só
consegue chorar copiosamente por se sentir completamente vazio e ingrato? Então,
nesse tempo, você já alimentou e fez crescer ao menos dois monstros distintos:
ansiedade e depressão.
O monstro nada mais é do que nosso próprio caos interior, suplicando para que
encontremos a paz, redenção e abrigo nos braços de outrem, já que não cabe mais
em seu próprio ser e não consegue mais encontrar ali tudo o que acredita ser
necessário para se libertar, voar e viver em paz outra vez. Seguindo por um caminho
mais límpido e repleto de novas possibilidades.
A obra retrata a busca, quase que incansável, do monstro para encontrar quem
o receba com afeto e bondade, reflete o desespero daqueles que passam a vida toda
em busca de aprovação, amor e respeito por serem quem verdadeiramente são.
Daqueles que vivem suas miseráveis vidas aceitando migalhas, humilhações e
desafetos de pessoas que nem mesmo se importam com sua existência e suas dores.
Reconhecer a criação de Frankenstein como um ser que habita em cada um de
nós pode ser chocante e, para muitos, impensável. Contudo, ao olhar com atenção
para dentro de si, poderá observar aspectos similares aos anseios do monstro: a busca
por amor, empatia, consolo. Em algum momento de nossas vidas, por melhor que
sejam estas, tais sentimentos serão expostos e será possível identificar-se com a
criatura, mesmo que contra a sua própria vontade.
Deverá também ser considerado que o monstro, infelizmente, não foi feliz em
suas buscas e acabou seguindo pela escuridão, optando por ceder espaço à vingança
e ao desprezo pela vida, que outrora tanto o encantava e despertava tamanha
convicção de que poderia ser bela e grandiosa. O monstro rende-se ao lado obscuro
que cada ser humano possui. Não há mais vida em seu ser, apenas instintos de
sobrevivência.
É possível realocar a obra analisada para o século XXI, em meio ao desespero
dos jovens em busca de quem eles realmente são e dos adultos que vivem em modo
automático suas rotinas exaustivas e exploratórias. É neste contexto que os monstros
são revelados: depressão, ansiedade, ataques de pânico e a sensação do mundo ao
seu redor desmoronar. Mesmo que ainda haja vida em seus corpos e mentes, sua
esperança já se esvaiu, mesmo que esta, em tese, deva ser a última a morrer.
Conseguir olhar nos olhos de seu monstro interior, presente em toda sua
existência, mesmo que em alguns momentos de maneira mais sutil, e perceber que ele
pode ser muito menor do que você imaginou, talvez o dê forças para lutar contra ele,
talvez o faça se sentir ainda mais aflito e sem rumo. Quem poderá dizer que seu
monstro é pequeno demais, senão você mesmo?
A criatura finalmente encontra sua paz somente com a extinção de seu criador,
pois ali, jaz todo o início do martírio vivido até então. O que retrata outro monstro
extremamente delicado que habita os corações dos mais sofredores: o suicídio.
Aqueles que só encontram a paz, ou, ao menos, acreditam que poderão encontrá-la,
quando seus corpos e mentes não mais viverem em masmorras, aprisionados pelo
medo, angústia, arrependimentos.
Frankenstein, enquanto criador, demonstra também quão arrogante e
prepotente pode ser o homem, que com um pouco de conhecimento e desprezo pela
ética e moral, poderá dar a vida a criaturas terríveis, não somente as já citadas, como
também guerras, corrupção, desmatamento. E, após tais atos, precisa aprender a
aceitar suas criações e as mais diversas reviravoltas que elas podem e irão causar ao
mundo. Tentando sufocar seus sentimentos todas as noites, sabendo que foi o
precursor de todo o caos e destruição que assombram mesmo seus dias mais
ensolarados.
É emocionante imaginar que a jovem autora, mesmo sendo submetida a
numerosas situações de desvalorização enquanto escritora e mulher, como a primeira
publicação da obra, Frankenstein, a qual foi feita sem levar seu nome, pois à época
não aceitavam que a criação pudesse ser sua, apenas por ser uma jovem mulher.
Também situações que poderiam a fazer querer desistir de sua vida, como a morte
ainda na infância de dois de seus filhos, chegando apenas um à idade adulta, e sua
precoce viuvez. Contudo, Mary Shelley foi capaz de superar os desafios ao longo de
sua vida, demonstrando resiliência e talento, mesmo nos momentos mais sombrios.
Referência Bibliográfica
SHELLEY, Mary Wollstonecraft. Frankenstein. Barueri, SP: Camelot, 2021.
Muito talentosa essa aluna, Parabéns!!
Ótimo texto, Larissa. Parabéns!
Que a gente saiba mensurar os nossos próprios monstros em busca de uma vivência mais equilibrada.
Maravilhoso esse texto, retrata muito a nossa atualidade. Muito bom, Larissa!
Texto incrível e de excelente colocação, diz muito sobre a realidade. Parabéns, Larissa!
Nunca havia pensado por essa perspectiva. Achei muito interessante. Parabéns Larissa !!
Ótima interpretação, parabéns!
Que texto maravilhoso, a forma como a narrativa é tratada e os conceitos retirados trazem um ar de reflexão e aspiração das personagens em relação a vida
Parabéns pelo texto Larissa, ficou simplesmente perfeito e muito bem estruturado.
Os clássicos se mostrando sempre atuais
Parabéns futura escritora, perfeito. É um orgulho,
Trabalhar com vc!!
Muito interessante essa ideia de personificar esses vícios modernos, através da figura do monstro. Linda a interpretação que você deu a obra, deu até vontade de ler o livro pra entende-la um pouco mais.